Na Bienal de Arte de São Paulo deste ano, que está em sua 29ª edição, o curador Moacir dos Anjos vai trazer para dentro do prédio da Bienal – como convidados – aqueles que foram expulsos do mesmo espaço em 2008 enquanto criminosos ou invasores arruaceiros: a turma do pixo.
A seguir, uma parte da entrevista do curador Moacir dos Anjos falando o porquê da inclusão do grupo na Bienal feita à Folha de São Paulo (para ler na íntegra a entrevista, cique aqui)
Folha - Por que incluir os pichadores da 28ª Bienal na 29ª edição do evento?
Moacir dos Anjos - Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que nosso intuito não é incluir 'os pichadores da 28ª edição'. Não se trata de um pedido de desculpas ou de um confronto com a edição anterior do evento. O que realmente queremos incluir na presente edição da Bienal é a pixação, ou simplesmente o pixo, com 'x' mesmo, grafia usada por seus praticantes para diferenciar o que fazem hoje em São Paulo das pichações político-partidárias, religiosas, musicais, ou mesmo ligadas à propaganda que há vários anos enchem os muros e paredes da cidade, a despeito do quão 'limpa' ela queira apresentar-se. E queremos incluí-lo porque achamos que o pixo borra e questiona os limites usuais que separam o que é arte e o que é política. E essa é uma questão que interessa muito ao projeto curatorial da 29ª Bienal.
Lembro que política é aqui entendida não como espaço de apaziguamento de diferenças, mas justamente o contrário. Ou seja, como o espaço formado pelos atos, gestos, falas ou movimentos que abrem fissuras nas convenções e nos consensos que organizam a vida comum. Ou seja, como bem coloca o filósofo francês Jacques Rancière, política entendida como esfera do "desentendimento".
Essa é uma questão que, evidentemente, envolve uma série de dificuldades para que essa aproximação não se dê somente na superfície e, portanto, escamoteando as diferenças existentes, situação que não interessaria nem a nós nem aos pixadores. A nossa aposta é em descobrir formas novas de tratar do assunto com integridade de ambas as partes, sem que instituição e pixadores cedam completamente ao universo da outra.
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| Caravaggio |
Independente de qualquer coisa, vale lembrar: cada linguagem, forma de expressão ou processo da arte é reflexo do seu tempo. Elas se sobrepõem ao que já existe, pois há espaço para todos, para depois se desdobrar em vários caminhos.
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| Caravaggio |
Para muitos pode ser absurdo comparar. Mas, o hoje novamente badalado Caravaggio, um gênio inquestionável e criador das obras acima, foi durante séculos taxado por muitos como um mero arrivista social. Ao mesmo tempo que ele trabalhava para a Igreja Católica para se proteger das bobagens que cometia, segundo alguns historiadores, ele também trouxe a fé novamente ‘’down to earth’’, aproximando a religião das ruas e colocando mendigos e prostitutas como modelos de seus quadros. A história pode se repetir, inserindo os excluídos ("pichadores"), discriminados na sociedade.
Referência:
Folha.com
Portal Arte & Cultura




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